sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Uma homenagem a Flavio Colin




Veja os depoimentos de diversas pessoas ligadas ao mercado de quadrinhos sobre esse mestre dos quadrinhos nacionais, que nos deixou no dia 13 de agosto de 2002
Por Sidney Gusman

O jovem Flavio ColinTerça-feira 13 de agosto. Não, não era uma sexta-feira 13 de agosto, a data predileta das histórias de terror, mas, mesmo assim, foi um dia fúnebre para quem ama os quadrinhos brasileiros. Flavio Colin morreu. O maior desenhista de HQs desse imenso país partiu, deixando por aqui inúmeros fãs, que jamais esquecerão da alegria que suas obras proporcionaram ao longo de mais de cinco décadas.

Não há palavras suficientes para definir o que Colin representava para os quadrinhos do Brasil. Mesmo assim, o Universo HQ pediu a diversos profissionais ligados ao mercado de HQs depoimentos sobre a importância desse mestre, na acepção da palavra.

Em forma de texto ou de traço, você confere agora o que Flavio Colin representava para cada uma dessas pessoas.

E que sua arte magnífica permaneça sempre viva na nossa memória.




Entrevista com Flavio Colin

por Samir Naliato
Colin em seu estúdio
Flavio Colin em seu estúdio
Ele é simplesmente o maior mestre da nona arte no Brasil, ainda na ativa. Possui um traço único, diferente, estilizado. Já desenhou de tudo um pouco, passando por tiras, HQ's de terror, eróticas e até álbuns com obras históricas. Em fevereiro de 2001, ganhou o troféu Angelo Agostini de melhor desenhista de 2000, com Fawcett.

Aos 70 anos, é um defensor exacerbado dos quadrinhos nacionais. Não gosta do Batman, nem do Super-Homem. Acha que são coisas dos gringos. Nas suas HQ's podemos encontrar a mula-sem-cabeça, o saci-pêrere, caboclos, mulatas, samba, macumba, cerveja, enfim, tudo aquilo que tiver raízes em nossa cultura.

Conheça um pouco mais sobre o mestre Flávio Barbosa Mavignier Colin, ou simplesmente, Flavio Colin, em suas próprias palavras!

Universo HQ: Como foi o seu início de carreira? Em que ano isso aconteceu? Como era o mercado de quadrinhos no Brasil naquela época?

Flavio Colin: Eu iniciei nos anos 50, na Rio Gráfica Editora, no Rio de Janeiro. O quadrinho brasileiro nunca foi essas excelências, não é? Mas as revistas que eram publicadas, inclusive as da Rio Gráfica, vendiam bem. Tinha Fantasma, Cavaleiro Negro... e depois as nacionais: "O Anjo" e o "Jerônimo", que também vendiam bem. Pelo que eu me lembro!

UHQ: Que artistas influenciaram seu estilo?

Colin: Eu admirava muito o trabalho do Milton Caniff, que desenhava "Terry & Os Piratas"; Chester Gould, que fazia Dick Tracy; Alex Raymond, de Flash Gordon, um dos maiores desenhistas americanos, se não for o maior; e Burne Hogarth, que fez Tarzan.

UHQ: Poderia fazer um pequeno resumo de sua trajetória no meio? Editoras e títulos para os quais trabalhou, principais obras etc...Você publicou fora do País?

Colin: Não sei qual foi minha principal obra... Alguns dizem que realmente foi "O Anjo", aquela novela de rádio adaptada para HQ, lançada pela Rio Gráfica, que durou mais e me projetou no mercado de quadrinhos. Mas depois eu também fiz muita coisa para a Editora Outubro, de São Paulo, do Jayme Cortez e do Miguel Penteado. Eram histórias de Terror. Além disso, fiz os primeiros números de "O Vigilante Rodoviário", que foi o primeiro seriado nacional de televisão.

Depois, houve um período para a publicidade. Durou uns 12 anos, e parei até de fazer quadrinhos. Aí, voltei para a Grafipar, do Paraná, com histórias eróticas; para a editora Vecchi; e fiz o Lobisomem para a editora Bloch. Então, fui pegando trabalhos avulsos, pois não tinha mais uma série completa. Sempre fiz quadrinhos.

Cheguei a publicar na Bélgica, na Itália e até em Portugal, pela Meribérica.
Colin com um trabalho ainda inédito
Colin com um trabalho ainda inédito
UHQ: Como você comentou, no início de sua carreira fez uma adaptação da série policial de rádio O Anjo e, posteriormente, um seriado de TV (O Vigilante Rodoviário). Como eram as vendas desses títulos? Qual a dificuldade em se fazer esse tipo de adaptação?

Colin: O Vigilante era negociado em São Paulo, pela Editora Outubro e, até onde eu sei, vendia muito bem. O Anjo também, porque tinha a cobertura da novela radiofônica, e faziam aqueles cartazes em bancas e pontos de vendas.

A dificuldade era que "O Anjo", no rádio, se passava nos Estados Unidos e, por isso, todos os nomes e cidades eram americanos. Mas, nos quadrinhos, houve um acordo entre a Rio Gráfica e o Álvaro Aguiar, o autor, para tudo ser transferido para o Brasil. Então, era a mim que competia receber os capítulos da novela, e colocar aquilo tudo em HQ, com nomes brasileiros e cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre etc.


UHQ: Você foi um dos pioneiros no Brasil em fazer adaptações históricas para os quadrinhos. Esse tipo de trabalho exige muita pesquisa visual?

Colin: Eu fiz alguns trabalhos de episódios históricos. Sempre tive preocupação em fazer algo o mais bem documentado possível. O brasileiro é tão ignorante sobre as suas coisas, sua história, que é bom fazermos algo o mais próximo da verdade possível, para informar direito. Pra não fazer igual a algumas novelas por aí, que misturam índio americano com o índio brasileiro, e o povo não fica sabendo como é o índio brasileiro.

Não fiz muito, porque não apareceram mais oportunidades, mas é algo que eu gosto, porque instrui e diverte também.


UHQ: Há desenhistas que simplesmente ignoram a pesquisa na hora de conceber suas páginas. Qual o seu recado para esses "artistas"?

Colin: Eu acho que a pesquisa é fundamental, porque a memória é falha. A pesquisa te leva, não só a valorizar o trabalho e passar uma informação mais precisa e correta, como também a aprendermos. É subsídio para nossos futuros trabalhos.

Os quadrinhos são uma arte muito complexa. As pessoas, às vezes, não se dão conta disso, e acham que é algo infantilóide. Não! Existem muitos tipos de quadrinhos, assim como existem muitos tipos de filme e de música. Nem toda história em quadrinhos é infantil! Agora, eu acho que o desenhista tem que ler e, se puder, viajar. No meu caso, nunca pude viajar, porque sempre fui um "durão", mas comprava livros, sempre! Leio livros sobre tudo.

Isso porque, por exemplo, se pintar uma história passada na China, e eu não li nada sobre o lugar, claro que vou fazer uma pesquisa, mas já terei um registro na memória. E assim por diante.


UHQ: O maior volume do que você produziu foi, sem dúvida, histórias de terror. Por que optou por trabalhar especificamente com terror? Você curtia bastante o gênero?

Colin: Ah, eu curtia muito! Há quem diga que não é terror, é "terrir" (risos). Mas acontece que o terror era o que tinha na época, e o que vendia bastante, principalmente em São Paulo. Era um mercado em que o americano e seus copyrights não entravam. Então, era um espaço para o artista brasileiro.

O terror é bom de fazer, muito gostoso, porque incita sua imaginação. Você pode criar monstros e situações, inventa em cima de várias coisas. Fiz também muitas histórias de terror para a Editora D-Arte, do Rodolfo Zalla: Calafrio, Mestre do Terror... que também fechou, para variar!


UHQ: Monstros diversos, vampiros, lobisomens, zumbis, tarados sexuais, duendes, extraterrestres e muito mais. A inspiração para a criação visual das centenas de personagens que você já desenhou veio de onde? Do cinema? Dos livros?

Colin: Sim, de tudo! Essas histórias de Lobisomem, fantasma, almas de outro mundo, de visões, estão todas no folclore brasileiro, a gente as escuta desde de criança. Todos já ouviram falar disso! Isso é muito do brasileiro, do caboclo e do índio. Quem vive no mato, na selva, tem muito disso, acaba vendo coisas. É um bicho que passa, a sombra de uma árvore... Então, para justificar o medo deles, falam que é o Saci Pererê, uma alma de outro mundo etc... É assim que surgem essas figuras. O americano não tem muito disso. Quer dizer, eles têm lá os fantasmas dele. Gostam muito de vampiro, mas vampiro é universal. E depois partiram para a ficção científica.

UHQ: Hoje, você acredita que exista espaço para o terror nos quadrinhos?

Colin: Olha, eu acho que existe SEMPRE! As gerações se renovam, caramba! Falam que não vão fazer mais histórias de faroeste. Por quê? Sempre que passa um faroeste no cinema ou na televisão eu vou ver. Claro que isso não é um exemplo, porque foi assim que me criei. Atualmente é ficção científica, mas, na minha época. era faroeste. Todo mundo desenhava isso.

Até hoje se desenha faroeste. Grandes artistas na Europa desenham esse estilo. Como também desenhariam terror, por que não? Desde que seja conduzido com competência, inteligência e coragem. Mas falta editor, poxa. Os caras querem mole, trazem aquela titica toda prontinha, coloca balãozinho, roda e tchau!


Revista SpektroUHQ: É possível perceber, notadamente, na extinta revista Spektro, da Vecchi, que o material nacional continha sempre uma boa dose de sexo e sacanagem. Qual a reação dos leitores com relação a isso, na época?

Colin: Eu acho que reagiam muito bem, porque todos gostam de sacanagem (risos)! Se você olhar a história do mundo, verá que gregos, romanos, egípcios... todos eram chegados a uma bandalhazinha.

O que acontece é o seguinte: de uns tempos pra cá, o erotismo tomou conta. No meu tempo de rapaz, não tinha revista de mulher nua, nem nos quadrinhos. Dick Tracy, Flash Gordon... eles não tinham. Nem mesmo no terror daquela época. Mas, com essa onda, os editores achavam que se não tivesse pelo menos uma seqüência erótica, não venderiam as revistas. Por isso, era quase obrigatório se desenhar isso.


UHQ: Como foi trabalhar com o Ota (nota do UHQ: atual e eterno editor brasileiro da MAD, que, na época, respondia pelas edições de terror da Vecchi)?

Colin: Foi tudo bem, enquanto durou. Eu tinha trabalho pra fazer, e não tinha problema. Eu ilustrei várias histórias foram por ele mesmo, embora usasse pseudônimo. Depois, fizemos até uma revista chamada "Hotel do Terror", que, infelizmente, não foi pra frente, e ficou no primeiro número. Foi uma série que fizemos na Vecchi, que depois ele tentou fazer em formato de revista.

UHQ: Qual foi o motivo da falência da Editora Vecchi?

Colin: Olha, cada um tem uma versão. A que eu soube, é que o filho do dono da Vecchi começou a fazer gastos em investimentos, acima do possível. A estrutura da editora não agüentou e arrebentou.

UHQ: Você chegou a sofrer algum tipo de censura, em sua carreira? Se sim, fale-nos um pouco dessa época.

Colin: Nunca. Censura nenhuma. Bom, censura houve quando eu desenhei o Sepé para a CETPA (Cooperativa Editora de Trabalho Porto Alegre S.A.), uma cooperativa em Porto Alegre, do tempo do Leonel Brizola. A CETPA fazia coisas regionais. Por exemplo, eu desenhava o Sepé, um personagem real. Era um índio missioneiro. No Rio Grande existe até uma cidade e um rio chamados São Sepé.

Ele era meio canonizado, porque tinha um sinal na testa, uma meia lua, que era uma falha na pele, que brilhava quando o Sol batia. Então, viam nele uma figura mística. Como missioneiro, ele defendeu os padres jesuítas naquela guerra das missões. Tinha também "O Aba larga", que era a polícia montada do Rio Grande, desenhado pelo Getúlio Delphin; e "O Gaúcho", do Júlio Shimamoto.

Era uma cooperativa que publicava temas nacionais. Mas, como estava interligada ao Brizola, quando houve a rebordosa, fechou; e os desenhistas que faziam aquilo ficaram meio marginalizados.


UHQ: Um artista que podemos colocar como tendo uma carreira em paralelo com a sua, é Julio Shimamoto. Em praticamente todas revistas que você trabalhou, também encontramos obras dele. Qual sua relação com Shima? O que você acha do estilo dele?

Colin: Meu relacionamento com ele, felizmente, é fraternal. Sou um admirador dele, pela cultura que ele tem, pela sua simpatia, pela pessoa que é. Não nos vemos com a mesma freqüência, porque moramos longe um do outro, mas quando pegamos no telefone é quase uma hora de papo, porque falamos quase de TUDO. Sempre estou aprendendo alguma coisa com ele, com certeza.

Quanto ao trabalho dele, sou um admirador. É engraçado, nossos estilos são tão diferentes, mas eu gosto da maneira que ele desenha. Dinâmico, contrastado. Desenha muito bem, desenha a arte muito bem. É um grande desenhista, um dos maiores que eu conheço.


UHQ: Você chegou a fazer uma tira em quadrinhos chamada Vizunga, que, para nosso orgulho, está sendo republicada no Universo HQ. Qual a história dessa tira? Foi publicada em quais jornais ou revistas? O que levou ao cancelamento?

Colin: A história é que eu fui procurado pelo Maurício (Nota do UHQ: Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica) pra fazer um trabalho para publicar na Folha de São Paulo. Então, criei o Vizunga, porque sempre gostei de natureza, animais etc. Acho que tem muito desenhista e roteirista focando temas urbanos. Como eu, que, embora carioca, fui muito menino para o interior de Santa Catarina, e lá era mato mesmo. Meu pai foi trabalhar em uma madeireira. Acabei tendo um convívio muito direto com os animais e a natureza. Desgraçadamente, havia muito caçador. Existe aquela brincadeira de que todo caçador e pescador é mentiroso, exagerado; e isso me deu a idéia de criar o Vizunga.

Tem uma parte mais "séria", mais "acadêmica", onde ele recebe os amigos, conversa e começa a contar suas pescarias e caçadas, eu entrava com o cartum, a caricatura, para poder exagerar no tamanho do animal.

Pelo que eu sei, só a Folha publicou. Quer dizer, que eu vi. Dizem que saiu em outros lugares, mas isso eu não tenho conhecimento.

O cancelamento aconteceu porque eu ganhava muito pouco com aquilo, e o Mauricio ainda descontava a parte de distribuição dele. Aí, eu entrei para a agência de publicidade McCann Erickson e comecei a ganhar dinheiro. Um quadrinho de storyboard pagava o mês do Vizunga.

Vizunga


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